Todos os artigos de aquarius

A História de Avandreolina – Episódio 5

A lua brilhava por trás de uma cortina de nevoeiro. Era uma noite pacífica na capital. O mercado escondia tesouros de terras distantes e na rua apenas passavam os bêbados regressavam a casa depois de se afogarem em cerveja e cidra.
No porto não se ouvia vivalma. As gaivotas pareciam gárgulas que protegiam os barcos e os edifícios à volta. O castelo apenas tinha duas luzes acesas. Numa das torres podia ouvir-se um escrevinhar incessante e quase frenético.
Um homem velho de barbas longas grisalhas escrevia numa língua indecifrável.
Num dos quartos um dos conselheiros sussurava com um comandante:
Conselheiro: – “Como vão as preparações?”
Comandante: – “Os Jurgos já estão às portas do reino. Assim que começarem o plano os turcos vão com certeza abandonar o reino. Os esquadrões estão praticamente todos na fronteira Sudeste. Não chegarão a tempo de salvar nada.”
Conselheiro: – “A Tríade recompensar-te-á abundantemente pelos teus préstimos. Avisa Ponus que os turcos não poderão ser maltratados. Tudo terá que acontecer com rapidez e sem falhas para que a vitória seja assegurada.”
Comandante: – “Como será a resposta dos bárbaros a Norte?”
Conselheiro: – “Os bárbaros são preguiçosos de mais para se mexer por causa de uns vizinhos. Mesmo que fizessem alguma coisa seriam esmagados contra a nossa cavalaria.”
Comandante: – “Muito bem. Parto imediatamente. Se tudo correr bem ver-nos-emos dentro de 3 semanas em Varin.”
Conselheiro: – “Ide pelo Norte, onde há menos actividade, levai esta carta para Ponus.”
O comandante pegou na carta e colocou-a no alforge e saiu do quarto em silêncio.
Dirigiu-se para os estábulos do castelo sem fazer um ruído e pegou num cavalo branco já preparado para partir. Montou-o e saiu da capital sem ninguém lhe dirigir a palavra.

———

Avandreolina sentia-se estranha. Pela primeira vez há muito tempo não tivera pesadelos, no entanto sentia algo que não lhe permitia dormir. Belta dormia tranquilamente ao seu lado. A cama intocada do outro lado do quarto recordava-a do que tinha sucedido.
Levantou-se e foi à pequena janela do quarto. Lá fora não parecia estar a passar-se nada. De repente sente um estranho odor no ar. “É fumo!” – pensou ela. Dirigiu-se imediatamente para o porto.
Um dos barcos da capital estava a arder. Avandreolina começou a gritar para alertar os habitantes. Os marinheiros do porto acordaram de imediato e apercebendo-se do que estava a acontecer pegaram em baldes e começaram a apagar o fogo. Várias pessoas acordaram também e começaram a dirigir-se ao porto.
No meio daquela confusão Avandreolina nem tinha reparado que estava em trajes menores e sem o seu disfarce. Caiu em si, depressa toda a vila acordaria e vê-la-iam assim. Correu para a estalagem tentando ocultar a face e acordou Belta rapidamente.
Avandreolina: – “Um dos barcos no porto está a arder.”
Belta: – “Como assim?”
Avandreolina: – “Alguém deve ter pegado fogo a um dos barcos.”
Belta: – “Era um dos nossos?”
Avandreolina: – “Acho que sim. Não vi pormenores… Mal reparei que estava sem disfarce retornei. Como vou agora arranjar um disfarce?”
Belta: – “Calma. Só partimos ao fim do dia. Vou fazer os possíveis por ajudar mas o mercado só abre daqui a umas horas. Vou tentar ajudar no porto e volto mais tarde.”

Belta vestiu-se e saiu do quarto com o cabelo desgrenhado.
Avandreolina não conseguia aguentar fechada num quarto… A paciência não era uma das suas virtudes. Enquanto esperava olhava pela janela e viu que a maior parte da população da vila estava já à volta do porto enquanto vários homens acabavam de apagar o fogo.
Escutou um sussuro no quarto ao lado. Avandreolina encostou o ouvido à madeira.
Voz 1: – “… era necessário. Apenas um ficou danificado. Não vai parar nada. Se Gebor chegar à capital o plano pode ficar arruinado.”
Voz 2: – “Se for preciso podemos pará-lo quando chegar à capital. Eles vão chegar durante a noite.”
Voz 1: – “E o que será do delfim? Quem o protegerá?”
Voz 2: – “Se morrer, a Tríade louvará o seu sacrifício. Está o futuro da Tríade em jogo.”
Avandreolina pensou para si “A Tríade aqui? Quem será o delfim? Que plano é este que falam?”.
Alguém bateu à porta.
Voz à porta: – “TODOS LÁ FORA! JÁ!”
Era a voz do porta voz dos cavaleiros da capital. No quarto do lado calaram-se imediatamente. Imediatamente a seguir bateram na porta so seu quarto.
O porta voz fez o mesmo aviso novamente, mas desta vez bateram à porta. O que poderia fazer? Não tinha disfarce!
Imediatamente gritou numa voz claramente disfarçada:
Avandreolina: – “JÁ VOU! JÁ VOU! AGUENTEM!”
Lá fora gritaram novamente:
Voz: – “TODOS AO PORTO!”

Ouviram-se vários passos por toda a estalagem e vozes que murmuravam incrédulas umas para as outras.
De repente a porta abriu-se. Belta entrou no quarto.
Belta: – “Temos que nos despachar. Um dos barcos que foi danificado era da capital e o resultado pode atrasar o nosso regresso à capital. Eles querem descobrir quem foi o culpado pelo incêndio.”
Deu a avandreolina um recipiente de madeira que continha uma pasta adesiva. Usou-a para colocar os cabelos que usava no dia anterior na face. Vestiu-se e saíram juntos em direcção ao porto.

Chegados ao porto os cavaleiros da capital formavam uma linha e o Porta Voz pediu a todos os camponeses que formassem outra atrás deles. Começou:
Porta voz: – “Todos vós sois testemunhas que foi danificado um barco do nosso rei. Tratando-se de propriedade real tem que ser punido o responsável por tal acto. O vosso treino começará hoje!
Irão ser organizados em parelhas com os cavaleiros para fazer uma busca à vila de actividade ou sinais suspeitos de traição. Quaisquer suspeitas devem-me ser comunicadas imediatamente. Como os restantes barcos partirão para a capital ao fim da tarde e partiremos com eles tendes até lá para me encontrar o culpado.
Gebor irá emparelhar-vos.”
Gebor dividiu-os em pares e trios já que existiam mais camponeses do que cavaleiros. Avandreolina formou um par com um cavaleiro que já havia reconhecido da sua aldeia. Reflectindo nas palavras do Porta Voz pensou também no que ouvira no quarto ao lado do seu na estalajem. Deveria começar certamente por lá.
Avandreolina: – “Podemos começar na estalajem?”
O cavaleiro que a acompanhava não respondeu e dirigiu-se para um lado da vila onde Avandreolina nunca estivera.
Avandreolina: – “Ei! Estou a falar contigo! Não me respondes?”
O cavaleiro seguiu o seu caminho sem proferir uma palavra. Avandreolina seguiu-o. O cavaleiro entrava nas casas das pessoas sem mencionar uma palavra. Vasculhava-as mecanicamente e as pessoas nem comentavam.
Avandreolina olhava para esta situação sem saber o que fazer. Seguia o cavaleiro e pedia às pessoas das casas para entrar nelas com uma voz melancólica.

Numa casa o cavaleiro pegou numa criança que estava a esconder uma pequena caixa de madeira pelos cabelos. Os pais nada fizeram. Avandreolina não conseguiu ficar imóvel.

Avandreolina: -“Pára brutamontes!” gritou sem reparar que o disse num tom de voz normal.
Os pais ficaram muito admirados e boquiabertos.
Avandreolina: -“Se queres magoar alguém luta com alguém do teu tamanho!”- corrigiu com a voz rouca e grossa que utilizava como disfarce.
O cavaleiro atirou a criança para o lado e olhou para a caixa como se nada se tivesse passado.
Depois de olhar para a caixa atirou-a para a lareira e deslocou-se para a porta.

Avandreolina viu a pequena caixa de madeira voar em direcção à lareira e imediatamente tirou-a de lá com auxílio de uma tenaz. Ficou parcialmente destruída.
O pobre rapaz olhando para o seu tesouro saiu de casa chorando. Avandreolina pousou a caixa sem reparar que o seu conteúdo tinha ficado alojado na sua bolsa.

Continuaram a procurar por sinais nas casas do mesmo bairro sem nada encontrar.
Depois de procurarem em duas dúzias de casas dirigiram-se para a estalagem para jantar.

—–

Deixem comentários em:

http://forum.tribos.com.pt/showthread.php?t=31568

Aquarius,
Daniel

A História de Avandreolina – Episódio 4

O pequeno grupo de cavaleiros cavalgava fazendo apenas pequenas paragens. Sem locais de abrigo não podiam arriscar ficar muito tempo num mesmo lugar. Dormiam poucas horas de cada vez. Avandreolina não vira Gebor pregar olho uma única hora.
A criança que levava consigo continuava sem pronunciar uma palavra. Ninguém parecia corajoso o suficiente para arriscar atirar uma frase. Cavalgavam ao sabor do vento e do sol.
Quando chovia tinham que andar mais devagar para não cansar os cavalos.
A chuva no planalto caía sem obstáculos. O retinir nas suas armaduras marcava o ritmo do seu passo.

Quando chegaram, alguns dias mais tarde ao fim do planalto a comida que trouxeram já não era comestível. Próximo do rio que ladeava a montanha sabiam que encontrariam um local de repouso.
Aproximaram-se das escarpas que flanqueavam o rio procurando pelo local mais fácil para o atravessar. Viram em baixo deles uma jangada que poderiam usar para atravessar para o porto. O rio era pequeno e corria calmamente.
Não tiveram dificuldade em atravessar. A jangada apenas podia levar 2 cavalos de cada vez pelo que em cada viagem ia um cavaleiro da capital e um aldeão. Na última viagem foi Avandreolina com Gebor.
Avandreolina: – “Quantos dias mais demoraremos a chegar à capital?”
Gebor: – “Não mais de 3, em princípio.”
Avandreolina: – “Já havias lutado com soldados Jurgos?”
Gebor: – “Já lutei contra muitos homens. Os Jurgos sempre lutaram a meu lado contra a tirania.”
Avandreolina: – “O que faremos sem os aliados?”
Gebor: – “Não é a mim que cabe tal decisão. Informaremos o General Sirrus de tudo o que sabemos. Quem pode planear o futuro não somos nós.”
Perante a resposta ela ficou pensativa. Não desejava ver a sua vida nas mãos de homens que nunca conhecera.

Chegados ao outro lado do rio os seus amigos receberam-nos com grande entusiasmo.
A pequena vila piscatória parecia recebê-los de braços abertos. Várias crianças vieram saudá-los como se de heróis se tratassem.
Havia muita gente nas ruas. Belta cumprimentava alguns dos locais. Entretanto os cavaleiros da capital deslocaram-se para o quartel da vila onde iriam receber provisões.
Os restantes aldeões seguiram o porta voz para uma estalagem onde iriam pernoitar.

Avandreolina nunca vira uma vila. A quantidade de pessoas parecia-lhe desmesurada para um local apertado. Belta apresentou-lhe alguns dos seus amigos. Avandreolina sorria educadamente.
Aparentemente chegaram numa altura propícia. Vários barcos chegaram da capital e para lá partiriam no fim do dia seguinte. As mercadorias que traziam interessaram Belta que deixou Avandreolina com duas das suas amigas.
Amiga 1: – “Ali vai um com o qual não me importaria de partilhar o leito.”
Avandreolina ficou muito corada mas mantinha a cabeça baixa.
Amiga 2: – “Mas não se preocupe que somos ternas com todos.”
Amiga 1: – “Se quiserem passar uns bons momentos não se esqueçam de nós na ‘Belle’.”
Avandreolina nunca olhara para Belta “daquela” maneira. Foi o seu primeiro e mais próximo amigo na nova aldeia depois do terrível acontecimento. Sempre olhara para ele como um irmão, alguém que estaria sempre presente numa hora de necessidade.
Enquanto as duas amigas se afastavam olhava para Belta como se não o conhecesse. Era alto e bem parecido. Porque é que nunca o vira com uma moça?

Porta Voz:  – “Venha depressa”
Avandreolina: –  “Imediatamente senhor.”
Seguira para a estalagem onde todos os aldeões já estavam instalados. Os cavaleiros da capital entraram na estalagem carregados de sacos e iam pousando-os à frente de cada aldeão.
Gebor: – “Partimos amanhã ao fim da tarde com os barcos que vão para a capital. Aproveitem bem o tempo disponível.”
A maior parte dos aldeões saíram da estalagem despreocupadamente. Gebor e o porta voz discutiam alguma coisa.
Porta Voz: – “Que notícias há da capital?”
Gebor: – “Vamos chegar atrasados. Os forasteiros já lá chegaram.”
Porta voz: – “Tão cedo? Só deveriam chegar na próxima semana!”
Gebor: – “Os ventos devem ter sido extremamente favoráveis.”
Porta voz: – “Que Deus nos ajude nesta hora de necessidade. Bem precisamos de apoios.”
Gebor: – “Apoios assim poderão não ser de confiança…”

Avandreolina pensava para si quem seriam estes “forasteiros”.
Entretanto um aldeão puxou-a para fora da estalagem. Seguiram juntos para uma taverna nas docas. Belta estava a conversar com o dono. Avandreolina olhou fixamente para ele. Ele olhou para ela.
Os aldeões na taverna bebiam cerveja e cidra. As jovens da taverna riam e circundavam-nos na esperança de obter lucro fácil.
O aldeão que a puxara pedira várias cervejas ao dono da taverna e oferecera-lhe uma. Avandreolina bebeu a cerveja de um trago só. Belta comentou:
Belta: – “Se começares assim a noite acabará cedo…”
Avandreolina: – “A noite ainda é uma criança!”
Avandreolina aprendera facilmente os trejeitos masculinos. Ria e praguejava como o mais purista dos marinheiros. Belta ria também, e dançava com as jovens ao som de um trovador invisível. Avandreolina sentia saudades dele.
Já não passava tanto tempo com Belta desde que construiu a sua quinta na aldeia. Desde que Belta começara as suas viagens de mercadoria que pouco tempo passavam juntos. Tiveram ali a oportunidade de rir juntos durante largas horas.
Chegou mesmo a desejar que o dia seguinte não viesse.
Avandreolina não reparara que com tanta cerveja a sua “barba” se desprendia da cuidadosa colocação sobre a sua face. De repente entra na taverna um dos cavaleiros da capital. Belta ficou alarmado com a sua presença e rapidamente aproximou-se de Avandreolina.
Ela estava um pouco estonteada. Belta saiu com ela discretamente por uma porta da taverna para as traseiras. Apoiando um braço dela sobre as costas deslocava-se para a estalagem. Avandreolina nunca tinha reparado nos pormenores da face de Belta.
Parecia-lhe um ser perfeito. Chegados à estalagem Belta entrou num quarto e ajudou-a a sentar-se numa das camas. Avandreolina não queria separar-se de Belta. Puxou o seu braço longo e atirou-o para a sua cama.
Nunca tinha sentido tal desejo, queria apenas cobri-lo de beijos.
Belta: – “Estás bem?”
Avandreolina: – “Nunca estive melhor!”

—–

Deixem comentários em:

http://forum.tribos.com.pt/showthread.php?t=31568

Aquarius,
Daniel

A História de Avandreolina – Episódio 3

Avandreolina queria gritar… mas não podia deixar que o seu disfarce fosse descoberto.
Gebor estava ofegante. A idade pesava sobre os seus ombros largos e a cota de malha parecia mais pesada que o normal. Sentou-se ao pé de um poço que estava posicionado ao pé de um celeiro a arder. Ninguém parecia preocupado por tal fogo.
Os restantes cavaleiros da capital pegavam no corpo de Trog e dirigiram-se para fora da aldeia para lhe dar uma morada mais condigna.
Parecia ter passado horas até que o resto do grupo chegou à aldeia com o aldeão ferido.
O porta voz dos cavaleiros estava lívido. Não conseguia pronunciar uma palavra. Belta e os companheiros olhavam para a cena mudos.

Gebor tomou a palavra:
Gebor: – Temos que partir imediamente. A aldeia foi atacada pelos Jurgos. O general tem que saber de tal traição.
Porta voz: – Como? Jurgos? Tendes a certeza?
Gebor: – Sim. Consegui retirar o elmo de um dos cavaleiros. Trazia na face a marca dos Jurgos.
Avandreolina: – Quem são os Jurgos?
Porta voz: – Aliados do Nordeste
Gebor: – Ex-aliados…
Belta: – Os Jurgos nunca foram aliados deste reino.
Porta voz: – Sempre tivémos um inimigo comum e tínhamos um pacto de não agressão!
Belta: – Quantos Jurgos morreram a proteger este reino?… NEM UM! – Gritou
Avandreolina parecia não reconhecer Belta. Nunca o vira tão irado.
Gebor: – Tínhamos um pacto para combater juntos a Tríade… é passado. Perante tal agressão não podemos ficar aqui. Com certeza que os cavaleiros negros vão avisar os seus companheiros. Temos que sair daqui o quanto antes. Temos que chegar à capital!

O porta voz dirigiu-se a Avandreolina, sem sequer reparar na criança que se escondia atrás dela.
Porta voz: – Devolva-me a montada!
Avandreolina: – Perdoe-me… as circunstâncias assim o exigiam!
Porta voz: – Se estivéssemos na capital poderia acusá-lo de roubo! Para uma próxima mostre maior apreço pelas suas mãos.

Avandreolina largou a rédea do cavalo e entregou-a ao porta voz. Pegou na criança e colocou-a em cima do seu cavalo, trazido por Belta. Dirigiu-se ao ferreiro da aldeia procurando ferraduras para o seu cavalo.
O ferreiro estava completamente devastado. Tudo estava espalhado pelo chão e o lume do ferreiro estava já frio. Avandreolina encontrou as ferraduras que precisava e próximo delas uma pequena caixa metálica.
Lá fora Gebor chamava por todos pelo que colocou a pequena caixa numa saca que trazia à cinta e correu para junto dos outros.

Belta acalmava a pequena criança e levava no seu cavalo o homem ferido. O grupo pôs-se a cavalo e dirigiu-se para o planalto que antecedia a montanha mais alta do reino…

———

Na capital todos os cidadãos estavam atarefados. No mercado ouviam-se gritos em várias línguas e os mercadores galanteavam as senhoras com promessas de uma vida exótica se comprassem os seus produtos; nas ruas circulavam várias carroças carregadas de alimentos, armas e tecidos sem cuidado com os míudos que corriam pela cidade; o porto fedia a peixe e era o recanto de um jovem franzino que, sentado no cais, olhava o pôr do sol ao longe imaginando um mundo de aventuras sem fim.
No castelo a azáfama e nervosismo eram notórios em todos. Corriam criadas de um lado para o outro corrigindo os meninos que não paravam quietos; na cozinha preparava-se um grande banquete e o chefe da cozinha tinha constantemente que corrigir aquele maldito miúdo que não sabia cortar batatas; as aias e as senhoras comentavam entre si frases sem sentido, “será que são iguais?”, “quantos virão?”, “ouvi dizer que o seu sangue não era vermelho”; o rei estava reunido com uma dúzia dos seus conselheiros que lhe davam pormenores acerca do que se iria passar; o rei roía as unhas nervoso escutando com atenção e receio de perder algum pormenor importante.
Conselheiro 1: – “É importante que não se façam comentários sobre o seu exotismo…”
Conselheiro 2: – “Temos que mostrar que aliarem-se a nós é a sua melhor escolha”
Conselheiro 1: – “É preciso arranjar um local conveniente para os seus aposentos”
Conselheiro 3: – “Quando chegarão os esquadrões reais?”
Conselheiro 4: – “Devem estar a chegar”
Conselheiro 2: – “Não tenha receio de mostrar altivez”
Conselheiro 1: – “As mulheres usam uns trajes muito diferentes…”
Conselheiro 3: – “Assim vão chegar atrasados!”
Conselheiro 1: – “… mas não se podem olhar nos olhos…”
Conselheiro 4: – “Vão chegar quando for preciso”
Conselheiro 2: – “Eles sabem reconhecer o poder quando o vêm”
Conselheiro 1: – “… nem nos tornozelos!”

De repente abre-se uma porta do salão real. Um velho criado anuncia:
Criado: – “Vossa alteza, chegaram os convidados!”
Rei: – “Mandai-os entrar!”
Criado: – “Sim, vossa alteza.”

As portas do salão abiram-se de par em par deixando entrar um leve cheiro a incenso.
Um homem alto e musculoso entra à frente com um turbante que parecia não caber na sua enorme cabeça. Atrás dele entram várias mulheres de véus roxos, lilázes, azuis e verdes.
O salão enche-se de cores e música. Ouvem-se instrumentos de cordas e sopro a aproximar-se. Entra de repente um grupo de 8 homens, cercados por aquilo que pareciam ser claramente soldados, que trazem nos ombros uma liteira.
Os soldados pousam as suas cimitarras no chão. os homens pousam a liteira no meio do salão e a música que provém de fora pára.

Da liteira sai um homem de pele escura, com um turbante branco carregado de jóias de muitas cores. Os conselheiros do rei estão boquiabertos.
O homem toma a palavra:
Naren: – “Boa noite bom rei, cheguei em má altura?”

—–

Coloquem comentários em:

http://forum.tribos.com.pt/showthread.php?t=31568

Aquarius,
Daniel

A História de Avandreolina – Episódio 2

À medida que o grupo de cavaleiros se embrenhava na floresta avançava mais devagar. A grande densidade de árvores, ramos e arbustos impedia os cavalos de avançar com celeridade. A floresta não era muito grande mas era o caminho mais curto para a capital. Não havia grandes conversas entre os cavaleiros. Belta evitava olhar para Avandreolina com receio de se desatar a rir, as suas espessas “barbas” iam deixando um pequeno trilho pelo caminho. Os mais corajosos iam cantando canções populares de épicos esquecidos.

Avandreolina tinha dificuldade em manter o passo. O seu cavalo, um animal de quinta, não possuía o equipamento necessário para uma viagem tão grande e temia não conseguir chegar à capital. Cada vez mais tomava atenção ao pequeno grupo de cavaleiros da capital. Nenhum parecia particularmente contente com a situação excepto o porta voz dos cavaleiros que elogiava constantemente aquela acção sobre a pequena aldeia. O mais velho do grupo era também o mais encorpado. A sua pele extremamente morena revelava uma grande experiência no campo de batalha. Avandreolina perguntou-lhe:
Avandreolina: – Que notícias há da frente da guerra?
Gebor: – Não há notícias há semanas.
Avandreolina: – Então em que estado está o reino?
Gebor: – O reino está adormecido. Desde que o rei Julius faleceu que a vitória pareceu esquecer-nos. Os nossos aliados a Norte e a Leste ameaçam abandonar-nos e prestar vassalagem à Tríade.
Avandreolina: – E enquanto tudo isto sucede o que tem feito o rei?
Gebor: – O rei está no seu castelo rodeado de soldados, receoso do futuro. Enquanto isso o General Sirrus lidera os esquadrões para uma derradeira batalha no vale das almas.
Avandreolina: – Quantos homens possui o rei?
Gebor: – Nos esquadrões juntaram-se cerca de 60 mil homens e cavaleiros. Juntar-se-hão outros tantos depois de formados na capital.
Trog: – Não te esqueças dos mercenários que virão da Casa de Dukov. Chegaremos certamente aos 150 mil no total.
Parecia que um leve alento sustinha as suas palavras.
Avandreolina: – E chegarão tais soldados para derrotar o exército da Tríade?
Ninguém lhe respondeu…

Gebor estava no exército desde tenra idade. Havia vivido dezenas de batalhas e conhecia de perto a proximidade com a morte mas na eminência de combater o exército da Tríade de Pilfius não conseguia manter a coragem que lhe era tão característica.
Trog era um homem baixo e bastante gordo. O seu elmo parecia ser pequeno olhando para o resto do seu corpo.
O pequeno grupo continuou a travessia da floresta e chegou à orla do outro lado da floresta já a meio da tarde e via-se no horizonte um grande planalto praticamente sem árvores.

Pararam para repousar um pouco à sombra das últimas copas quando um homem a pé apareceu mais adiante aos gritos. Avandreolina foi a primeira a avistá-lo. Avisou o resto do grupo e correu a pé em direcção ao homem. O pobre homem estava magoado num braço e sangrava profusamente de um corte na mão. Gritava sem fazer sentido.
Homem ferido: -A… ldeia… fe…ridos…. fa…mília…
O porta voz dos cavaleiros olhou para todos os lados e detectou um pequeno fio de fumo por trás de um monte a Sul da floresta.
Porta voz: – Quem vos atacou?
Homem ferido: – E… e… eram ne…g…gros… cava…los negros…

Gebor puxou da espada e dirigiu-se a cavalo em direcção ao fio de fumo.
O pequeno grupo de cavaleiros da capital seguiu-o sem dizer uma palavra. Todos de espada na mão.
Entretanto Avandreolina e os homens da sua aldeia estavam imóveis sem saber o que fazer. Belta permanecia no fundo do grupo à procura de qualquer coisa no meio da sua saca.

Avandreolina subiu para o cavalo do porta voz e dirigiu-se no encalço de Gebor.
Mal passou o pequeno monte viu que uma dúzia de cavaleiros negros se afastava da pequena aldeia enquanto Gebor e alguns dos cavaleiros da capital tentavam repelir os restantes que ainda se moviam pela aldeia.
Trog: – “AAAAAAAAAAAAAAAAAAH………”
Avandreolina ouviu um grito e correu imediatamente para Trog. Este jazia mudo, sem elmo com uma maça cravada nas costas, a sua cota de malha não parecia ter tido efeito perante a força massiva de quem empunhara aquela maça.

Gebor tinha conseguido afastar 3 cavaleiros negros do centro da aldeia. Os restantes cavaleiros da capital reuniram-se na praça. Tinham conseguido proteger a aldeia. Mas que aldeia? Olhando em volta ninguém se mexia.
O grupo de cavaleiros negros afastara-se incólume e eles perderam um homem. Nisto uma das casas abre uma porta. Uma pequena cabeça espreita cá para fora.

O silêncio que se abatera sobre a aldeia lembrava o de um cemitério.
Avandreolina correu para junto da criança, suja mas lavada em lágrimas, muda como toda a aldeia.

O nosso pequeno grupo de aventureiros ainda não tivera treino de guerra mas ela não esperava por eles.

—–

Deixem comentários em:

http://forum.tribos.com.pt/showthread.php?t=31568

Aquarius,
Daniel

A História de Avandreolina

Olá a todos.
Esta é uma pequena história que criei que remonta à Idade Média e conta um pouco da história de uma camponesa e da sua improvável aventura num mundo controlado por homens.

É a minha primeira história… por isso em princípio pode não parecer tão “apelativa” como outras.

Todo o texto foi criado por mim e só deve ser copiado com a minha expressa autorização.
Por favor respeite a criatividade alheia.

Podem comentar criticamente que eu tenho as costas largas.

O local onde podem ser feitos os comentários é:
http://forum.tribos.com.pt/showthread.php?t=31568

Episódio 1:
Avandreolina olhou para o céu. Os relâmpagos teimavam no horizonte num concerto de luzes. Tudo parecia ter mudado desde que o novo rei tinha sido coroado. A sua vida já não era a mesma. Não recordava a última vez que tinha conseguido dormir sem pesadelos do som das espadas que silenciavam os habitantes da sua aldeia natal. A aldeia onde se encontrava agora era uma das mais pequenas que vira na vida. Ali com certeza estaria a salvo das conquistas.

Continuou a cavar a terra mole e lamacenta que de vez em quando escondia um elmo ou um escudo de uma guerra de outros tempos. Nunca iria ter a sementeira pronta para a época fértil.

Ao longe, um som novo ressoava, o sino da aldeia badalava… o que teria acontecido agora? Largou tudo o que trazia e dirigiu-se em direcção à aldeia.

À medida que se aproximava do centro da aldeia via que a gente da aldeia se reunira na praça de reuniões e estavam lá todos os seus conhecidos e um bando de estranhos a cavalo.Um dos estranho tomou a palavra e anunciou:
Porta Voz: – “O magnânimo rei Goliac necessita de homens bravos para combater a Tríade de Pilfius. Todos os homens de idade devem retornar connosco para a capital onde irão ser equipados e recrutados para os batalhões reais…” Avandreolina olhou rapidamente à sua volta procurando Belta. Não conseguia vê-lo em lado algum.
Porta Voz: – “… partiremos de madrugada depois de todos os homens terem feito as suas despedidas.”

Gerou-se tal tumulto que Avandreolina sentiu-se estar no meio de selvagens, a notícia não agradara a ninguém. Os cavaleiros rapidamente rodearam a pequena multidão e desembainharam as suas espadas numa posição que mostrava que não haveria discussão sobre tal anúncio. Entre eles Avandreolina reconheceu um jovem que conhecera da sua aldeia Natal. Era agora um homem alto e robusto, tinha barba espessa e uma cicatriz sobre a face esquerda mas o seu olhar parecia vazio.

Apercebendo-se da situação insolucionável a multidão começou a dispersar rapidamente, começando pelos mais novos.

Avandreolina tinha que encontrar Belta. Dirigiu-se imediatamente à pequena loja nas traseiras do ferreiro onde se podiam ver tecidos, cereais, e imensos items que nunca vira na vida. Belta trouxera da sua viagem mais uma remessa de quinquilharia estranha. Ele estava na parte de trás da loja onde colocava os itens mais preciosos.  Descobrira-o a tentar perceber como funcionava um longo tubo metálico com uns pequenos buracos. Belta ficou sobressaltado.
Avandreolina: – “Desculpa, não te queria assustar. Não ouviste o sino? Chegaram os soldados da capital. O rei precisa de mais soldados… e agora também nós vamos ficar condenados ao abandono só com velhos e crianças…Belta respondeu-lhe:
Belta: – “Não enquanto tu estiveres cá!”
Belta não parecia surpreendido com a notícia. Avandreolina retorquiu-lhe:
Avandreolina: – “Achas que podes ir divertir-te e deixas o trabalho todo para mim? Nem penses!”
Belta assentiu… nunca conseguira perceber como é que Avandreolina mostrava tal vigor.
Belta: – “Então vais seguir-nos à cidade?”
Avandreolina: – “Estava mais a pensar ir convosco.”
Belta: – “Como esperas enganar os soldados?”
Avandreolina: – “Tenho um plano…”

Naquela noite Avandreolina procurava descansar. Os gritos da sua família ecoavam nos seus ouvidos… não conseguia dormir. Belta permanecia lá fora a dançar à volta da fogueira.
Como é que ele não estava nervoso por ir para a guerra? Avandreolina olhou de relance para um aglomerado de cabelos num canto da casa. Eram o meio perfeito para o seu plano.

De madrugada toda a aldeia estava pesarosa. O nevoeiro escondia as lágrimas das esposas de quase duas dezenas de homens que partiam naquela manhã. Belta não viu Avandreolina em lado algum.

O porta voz dos cavaleiros gritou:
Porta Voz
: – “Em frente!”
Mas um cavaleiro aproximou-se do grupo num cavalo que claramente não possuía ferraduras. O porta voz dos cavaleiros dirigiu-lhe a palavra:
Porta Voz
: – “Quem sois?”
Avandreolina
: – “Sou da aldeia.”- respondeu numa voz arranhada.
Porta Voz
: – “Não te vimos aqui ainda.”
Avandreolina
: – “Cheguei durante a noite de uma viagem a longínqua.”
Porta Voz
: – “A tua voz não me é estranha.”
Belta sorriu.
Avandreolina
: – “Já estive na capital várias vezes!”
A barba postiça de Avandreolina cobria-lhe apenas parte da face mas o nevoeiro parecia ajudar.
Cavaleiro
: – “Muito bem” – disse um dos outros cavaleiros – “partamos que temos que chegar à capital em menos de uma semana.”

Avandreolina colocou-se ao lado de Belta que não conseguia esconder um sorriso comprometedor.
O grupo partiu embrenhando-se na floresta que ladeava o Norte da pequena aldeia.

Avandreolina não imaginava que nunca mais voltaria a ver aqueles rostos amigos que a acolheram.

—–

Deixem comentários em:

http://forum.tribos.com.pt/showthread.php?t=31568

Aquarius,
Daniel