Arquivo de etiquetas: variantes

Seriedade… ou serenidade…

ILHYEste artigo é co-escrito, entre o Advogado do Diabo e o Anjo da Guarda e surge do resultado de um café entre amigos e da eterna batalha argumentativa de qual é a relação ideal e será que é melhor as relações que perduram versus as relações pontuais.

O Advogado,

Antes de mais, deixem apenas dizer que vou utilizar a palavra “serio” e as suas variantes fora do meu conceito no que se aplica a relações. Apesar o termo de relação seria, no meu entender também acaba por tocar neste ponto de intimidade e compromisso, creio que a seriedade de uma relação é algo mais complexo e profundo que apenas números de coisas e que se fazem e a sua frequência num calendário.

Como pré-conceito irei partir da máxima que todas as pessoas do planeta estão dispostas a algures na sua vida a terem uma relação inconsequente do dia de amanha e por esse motivo fica já uma aleluia ao nosso anjo.

Ontem, na nossa conversa acesa profanei o conceito de relações e as dinâmicas existentes entre os diversos tipos de relações. Sendo que o supra-ex-líbris foi porque motivo deveria de ter uma relação seria se consigo ter os prazeres carnais ao entrar num bar e os prazeres metafísicos em conversas como aquela que estávamos a ter com os meus amigos (e amigas, por incrível que pareça também tenho disso) mais próximos.

A verdade é que as relações estáveis apresentam algumas vantagens, por exemplo saber o nome da pessoa que está ao nosso lado quando abrimos os olhos. As constantes trocas de mensagens e telefonemas com frases do género onde estás!? – upss, isso é uma das más partes… ou talvez como disse o outro senhor, ouvir um amo-te sentido! No entanto, sem querer insultar as gerações mais novas, como é que se sabe que o amo-te ou a sua versão light, o adoro-te, é sentido? As palavras e os conceitos, tal como tudo no mundo, mudam o seu significado. Eu lembro-me de nos meus tempos de juventude uma miúda dizer-me amo-te era assustador, significava algo de muito importante e que ela me via como um parceiro para a vida e rapidamente sentia o sufoco da responsabilidade. Aquilo já era algo bastante serio e daquele momento em diante acabava-se a brincadeira para o bem ou para o mal.

Para felicidade, e também para a minha infelicidade, os meus ouvidos já ouviram vários “amo-te” e “adoro-te”. Mas nenhum me marcou tanto como em 2004, enquanto ia-me divertindo com uma amiga colorida que estava numa situação pouco normal de relacionamento para se andar a divertir. Foi num fim-de-semana de maratonas que a dada altura ela me disse “amo-te” o momento não podia ter sido pior, porém segundo o código da guerra dos sexos, coisas ditas nessa altura devem ser ignoradas e assim o fiz. Mas com o passar dos dias o “amo-te” começou a surgir com maior frequência, apesar de nunca lhe ter dito de volta as mesmas palavras comecei a reparar que essa expressão surgia em alturas particulares, quando os benefícios da nossa amizade não estavam a ser utilizados. A expressão tinha-se tornado num reflexo condicionado do Pavlov, era a campainha que anunciava um convite desportivo.

Apesar de todas as minhas folias e fugas às relações serias, já estive metido em algumas – afinal de contas como podemos saber que algo não foi talhado para nós antes de experimentarmos? No entanto é certo e sabido que somos o produto do nosso passado, constantemente preocupados com o futuro e a deixar fugir o presente, por este motivo sempre fui uma pessoa muito consciente e fatalista no que toca a relações serias, sei o que realmente quero e o que estou disposto a dar por isso. Com toda a minha experiencia de vida a taça não é o troféu máximo, pelo contrário é algo fácil de obter num bar a 20 km de minha casa (nos mais próximos estou um pouco marcado ou teria de repetir a corrida).

No entanto existe uma necessidade do sexo feminino de complicar as relações, e de as planear. Ora se num encontro casual as coisas acontecem, e como dito anteriormente todos nós estamos pré-disposto a tentar pelo menos uma vez… porque é necessário complicar aquilo que na teoria já é serio? Falemos de novo da famosa taça, ora bem se for sair ao tal bar, no máximo são 5 horas até chegar ao final da taça, porém se for arriscar numa relação seria com essa mesma pessoa habilito-me à taça passados 5 meses… o ridículo disto é que pode ser a mesma pessoa a levar percursos diferentes, mas quando estou a investir para algo de nem trocar o número de telefone é um par de bebidas e umas piaditas parvas. Ora se for algo serio… é uns jantares, cinemas, passeios por acolá, conhecer os pais, etc…

Ou seja, discordo! Não me faz sentido que os actos inconsequentes sejam de borla e os sentidos sejam os olhos da cara. Agora deixarei o Anjo discursar um pouco para contra-atacar…

O Anjo,

As relações são mais que uma postura carnal, são uma cumplicidade ao mais alto nível entre duas pessoas. Uma relação é o complemento de duas pessoas numa entidade de consciência comum, é um processo de entrelinhamentos entre um par e não é algo passível de acontecer de um dia para o outro, exige trabalho árduo inicial na construção de alicerces sólidos e constante manutenção daquela chama que os une.

Infelizmente é quase impossível de determinar se as relações irão funcionar ou não, depende imenso das pessoas envolvidas como dos meios exteriores. Acontece muitas vezes que por mais vontade de uma das partes (ou mesmo das duas) em fazer tal relação perdurar pode não ser o suficiente. Gosto de pensar que as relações no seu estado inicial são como o gato de Schrödinger.

O gato de Schrödinger,
A teoria de Schrödinger basea-se na relatividade dos eventos (física quântica), simplificando a teoria, Um gato está fechado dentro de uma caixa com algo venenoso, cabe ao gato decidir se irá se alimentar do veneno ou não. Porém o observador nada sabe sobre o estado do gato até abrir a caixa. Durante o tempo que a caixa está fechada para o observador o gato está simultaneamente vivo e morto. A certeza é apenas atingida com a abertura da caixa.

Quer isto dizer, que até ambas as partes atingirem um consenso de quanto querem investir nessa relação tudo é incerto, esta é uma relação que tem tudo para chegar ao “happy ending” tal como ao “crash and burn” tudo que lhe falta é abrir a tampa na caixa de Pandora e descobrir os males que dela saíram e a esperança que ficará.

Das relações que falham pouco há a dizer, senão compreender o porque de terem falhado e o que esperar no futuro, tal como o advogado disse, o passado marca-nos no entanto não tem de ser o assassino do nosso presente e futuro.

As relações que continuam, precisam agora de ser trabalhadas e limadas para garantir a sua continuidade, no entanto nesta fase surgem já os verdadeiros benefícios de uma relação estável. Quem não gosta de depois de um dia tenebroso chegar a casa e ter a sua cara-metade para o receber com aquele genuíno sorriso de felicidade. As palavras podem ter vindo a perder o seu significado, talvez hoje o “amo-te” seja utilizado de mão leve para diversas situações, no entanto isso não quer dizer que a emoção “dos tempos antigos” tenha desaparecido, pode sim ter-se diluído no termo – mas isso só o torna ainda mais especial quando se encontra algo tão sincero e sentido.

Não existe, nenhuma, acção no mundo que não possa ser feita de leve ânimo, seja um beijo, um abraço, um carinho, etc… no entanto a realização pessoal de se fazer esses actos a alguém que realmente queremos agradar todos os dias.

Uma relação séria é quando conseguimos abrir mão do nosso coração para entregar a outra pessoa sem pedir nada em retorno, e apenas esperar que essa pessoa não o vai partir.

O advogado contra-ataca…

Será possível de se esperar que uma relação foi feita para perdurar? Se uma relação é feita de sentimentos mútuos e deve ser sincera (segundo o que percebi e do qual não discordo). A questão que levanto não é do conceito geral de uma relação, mas sim da sua real existência e se realmente valerá a pena procurar estas?

Se uma relação séria tem como uma das bases a sinceridade dos sentimentos, a que se chamará a uma relação que é programada? Digo programada na forma como evolui… lembro-me do meu último relacionamento, altamente condicionado pelos faux pas do indivíduo que me precedeu, verdade que não sou nenhum anjo (para isso existes tu meu amigo). Mas partindo do principio que o passado foi de tal forma marcante sobre a outra pessoa que condicionou as atitudes desta nova relação. Seria de se esperar algo diferente? Talvez sim, talvez não… cada pessoa lida com a sua bagagem de forma diferente.

Podia-se argumentar que se travava apenas de um simples caso de “wrong time, wrong place” porém a causa de morte de pouco interessa a realidade é que encontrar o nível de sinceridade emocional para criar as tais bases é uma utopia, que nem mesmo nessa ilha deve existir.

Outro ponto pelo qual sou obrigado a discordar é nas relações falhadas. Não só pelo facto acima indicado porém algo mais pessoal, que são as cicatrizes emocionais que os relacionamentos deixados para trás. Para mim o melhor tratamento para isso é voltar ao jogo e relembrar-me que ainda tenho algo que atrai o sexo oposto. No entanto, tal como disse, diferentes pessoas diferentes formas de lidar com a “rejeição” varias atiram-se numa espiral de depressão (um termo que também diluiu a melancolia e os sentimentos perca).

Não discordo que as relações estáveis contribuem para um ego mais forte e saudável, melhorando significativamente o nosso estado. A minha divagação sobre este assunto prende-se à velha questão será que os meios justificam os fins? Todo o investimento que é necessário para encontrar (e nada garante) a tal relação? Afinal de contas este jogo de seduções, faz-me lembrar outro jogo estranho, a roleta russa.

O Anjo conclui…

É um jogo, sim… contudo, se o prémio é tão cobiçável, apenas uma coisa é certa se não o jogarmos o prémio não nos irá cair no colo. Em vários artigos escritos ao longo desta crónica foi sempre dito que a forma correcta é tomar uma atitude mais pró-activa e tomar controlo do destino.

Nada na vida é simplesmente fácil, aquilo que realmente vale a pena exige esforço e tributação de quem tenta alcançar. Isto faz-me um pouco lembrar os exames, quem estuda tem maior probabilidade de sucesso no exame. O mesmo acontece neste caso, não posso dizer que não existem azares e becos sem saída, mas também somos capazes de ver que erramos em alguns caminhos e voltar a trás para seguir uma nova direcção.

A forma mais simples que tenho para concluir este artigo é apenas dizer que a vida é como um barco, agora existem barcos que são desgovernados e aqueles que sabem para onde vão… a escolha cabe a cada um.

O dueto (Advogado e Anjo)