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Agora quem é o Anjo da Guarda…

Se há algo em que estarei de acordo com o Advogado do Diabo é a confortável sensação que este anonimato me confere. Reparei que num artigo passado alguém atribuiu a autoria dos meus textos ao Administrador de Comunidade.

Naturalmente não irei sair do conforto deste pseudónimo para revelar a minha verdadeira identidade, verdade seja dita que apenas um grupo muito restrito sabe quem na realidade sou, tal como a verdadeira identidade do Advogado e assim permanecerá por um longo período de tempo se depender da nossa vontade.

No entanto, tal como o Advogado fez, irei dar algumas pistas sobre quem sou sem revelar nada de pessoal. Creio que mais que o meu nome verdadeiro é o meu percurso, o que ficou para trás, o que faço agora e o que planeio para o futuro é o que faz de mim quem sou hoje.

Ironicamente, conheço pessoalmente o Advogado há muitos anos – os nossos caminhos se ligaram com um episódio na nossa vida, já em tenra idade tínhamos formas distintas de ver o mundo apesar de toda a nossa ignorância e teimosia de provar o outro de errado. Por algo estranhamente normal criamos um laço de amizade que até aos dias de hoje se mantém. Embarcamos no mundo académico nas mesmas áreas sempre com a picardia de provar o outro de errado, algo que até hoje continua. Partilhamos amigos, colegas e conhecidos e situações do arco-da-velha, porém em todo as nossas discordâncias conseguimos sempre encontrar o meio-termo de berros em discussões filosóficas.

Ao contrário do Advogado, eu acredito que as pessoas são mais que meramente o produto das circunstâncias – não removo a importância destas, mas acredito que há um padrão de morais dentro de nós capaz de se elevar ao que nos envolve. Por esse mesmo motivo acredito que as relações entre as pessoas podem durar e funcionar (e não falo exclusivamente das amorosas).

Porém com a convivência e influência do Advogado, também vejo que o mundo não é apenas um mar de rosas e existe algo por baixo do encantado perfume marcado pelos espinhos. E aqui fica a verdadeira diferença entre nós, ora o Advogado acredita que quando nos afundamos para essa área devemos mudar e perseguir algo novo, para mim devemos avaliar a situação e descobrir se é valido investir nesta circunstancia temporal e melhorar ou se tal visão é utópica.

Ao contrário que muitos possam pensar, entre nós existe uma grande proximidade da realidade abordada de uma forma muito sintética. Porém um acredita na construção das condições ideias ou outro acredita na filosofia da altura certa e local certo.

Qual das formas é a postura correcta na vida? São as duas, é encontrar o local certo, na altura certa para construir o momento “perfeito”. Contudo, é quase impossível combinar estas duas posturas e acaba-se por ter de se arriscar. Como diz o Advogado, acaba por ser como andar com óculos escuros durante a noite, nunca se sabe contra o que esbarramos.

O vosso,
Anjo da Guarda

sentido de justiça…

Pouco dias atrás li uma reportagem num dito jornal de “prestigio” algo deveras chocante, uma personalidade tinha sido presa alguns dias atrás devido a um crime (muito grave, a meu ver) que tinha (alegadamente) cometido à 31 anos atrás. Porém esta reportagem não se centralizava pelo facto de alguém seria apresentado à justiça para responder sobre os seus possíveis actos, mas pela sua libertação.

Esta historia ocorreu noutro país e devido às similaridades de um outro caso polémico que ainda se encontra em julgamento nas nossas terras lusitanas irei abstrair de entrar nesses detalhes. Apenas irei reafirmar que a meus olhos é algo que me choca e assusta saber que há pessoas capazes de tais coisas. Não sei se estas pessoas realmente cometeram ou não tais crimes, e por tal motivo abstraiu-me de passar julgamentos e focar-me-ei na discussão do direito.

Este caso fez-me relembrar a velha polémica das prescrições de crimes, algo que separa claramente vários sistemas judiciais, partindo de filosofias sobre a essência do ser humano completamente dispares. Por exemplo, em Portugal, a um crime cometido é dado um limite de tempo para se trazer a parte culpada à justiça, caso este não seja encontrado nesse tempo e não continue a praticar este crime – a nossa doutrina de justiça assume que a pessoa aprendeu e já não é um risco para a sociedade – sendo que para tipologia de crime existem tempos de prescrição. Desta forma a nossa justiça tenta encontrar e tratar a vitima e o infractor pela sua vertente humana. Ora nos EUA, terra dos cowboys, as coisas passam-se de forma diferente, pois quem comete um crime pode ser julgado em qualquer altura mesmo que já tenha falecido. Para o sistema judicial americano existe uma necessidade de repor e corrigir os crimes cometidos no passado, mesmo que ao fazer estejam a modificar a vida dos descendentes do infractor.

Quando olhamos criticamente para ambas as partes encontramos que estas se encontram em extremos opostos e rapidamente seriamos capazes de tecer o comentário, a prescrição deve existir para crimes “não graves” e não deve existir para os crimes “graves”. Porém isto trata-se de uma dicotomia de significados, o que é mau e o que é “bom”.

Poucos dias atrás ouvia uma musica (retro e verdadeiramente vintage) – The Beatles: Imagine – em que a dada altura John Lennon nos diz “imagina um mundo sem paraíso, … sem inferno… sem países… sem tudo aquilo pelo qual as pessoas matam… é fácil…” não consigo deixar de tentar imaginar este paradoxo. Sei que as pessoas precisam dos seus compassos morais e realidades circunscritas para actuarem numa sociedade funcional, ora sempre que tento imaginar o mundo que Lennon descreve apenas consigo ver algo pior que aquilo que já existe nesse sentido.

Lennon tenta-nos dizer que grande parte das discordâncias que ocorrem entre as pessoas deriva directamente das diferentes valencias que damos aos valores que temos, e assim quando dois são de tal forma dispares detona conflitos. O mesmo poderá se aplicar à decisão de quais são os crimes graves e desta forma ser impossível de se chegar a um dado consenso, sem ainda falar que para algumas pessoas determinados crimes podem ser vistos como nem sendo crimes – continuo a dizer que o circulo vermelho com o número 120 é a recomendação de velocidade de cruzeiro…

Isto tudo para chegar a uma pobre conclusão sobre a justiça, o ideal colocado sobre a justiça é da sua cegueira externa, que esta existe e é movida sobre um pilar estrutural de isenção do mundo externo. Contudo, a cada dia torna-se mais clara a influencia dos meios de comunicação social na perpetuação dos casos, no desenrolar de pré-sentenças, entre muitos outros. Será que caminhamos para uma fase em que as sentenças passaram a ser dadas através de envio de mensagens escritas para um numero de custo acrescido? A justiça poderá passar para um concurso de mera popularidade, uma espécie de reality show do qual as sentenças conseguiram ainda gerar lucros para cobrir os buracos orçamentais.

Eterno critico,
Advodago do Diabo